Testemunhos

Zé Maria “Aqui e agora no Porto e em Gaia”

ZM Belo

Sou o Zé Maria de 34 anos a recuperar de um TCE (Traumatismo Crânio Encefálico) no CRPG (Centro de Reabilitação Profissional de Gaia).
O que é este centro e como funciona?
Foi no início de Fevereiro de 2015 que comecei esta experiência, a dormir no Porto no CIAD (Centro Integrado de Apoio à Deficiência) e a trabalhar em Gaia, para que nova mente, novos espaços e nova gente fossem criados. Num grupo de dez pessoas comigo altamente improváveis de conhecer longe do programa no CRPG com diferentes problemas neurológicos.
Mudei de poiso e vim ver se fazia alguma coisa da vida no CRPG, foi um admirável mundo novo: um desafio exigente.
Porque precisei de utilizar este apoio para reabilitação neuro psicológico fornecido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP)?
‘Presta serviços no domínio da reabilitação de pessoas vítimas de doenças e acidentes potenciando a sua reintegração nos contextos profissional, familiar e social. Apoia também a transição de jovens com deficiências e incapacidades da escola para a vida ativa. O CRPG trabalha ainda com cidadãos com necessidade de reforço ao nível das qualificações.’
O CRPG – Centro de Reabilitação Profissional de Gaia visa a reabilitação e a reintegração das pessoas com deficiências e incapacidades na vida ativa.
(em www.crpg.pt no dia 22.05.2015)
Porque fazemos parte de uma sociedade de gente boa em que somos uns para os outros (‘ajudar ajuda!’) e criámos formas de existir juntos a melhorar. Todos podemos ter falhas e quedas que queremos suplantar, limpar o joelho esmurrado, levantar e continuar a correr. Nascemos dos outros e com outros, vivemos em espaços juntos e a melhorar novamente mas fazendo História e trazendo passados.

Coisas positivas geram coisas positivas.
O alojamento no CIAD: O jardim nocturno da Rosa e da Margarida. Os auxiliares tantos e tão bons, os segredos das conversas gestuais, o cumprimento do DR João. O sorriso cúmplice da Doutora Fátima. O quarto em construção com fotos. A sala de jantar com mesas redondas e desenhos. O pequeno-almoço com passou-bem, olhos nos olhos, ao companheiro Paulo e bolos e torradas. Estar a crescer sem saber.
Entre o Porto e Gaia na carrinha: passar pelo Douro e ver o mar diariamente duas vezes que está sempre lá belo e vivo. O bom dia do motorista Nuno. O ‘vou ser pai de novo’ dele com satisfação. A Glória, a Rita e o Amor. A confiança que tenho deles e neles.
O CRPGaia: o grupo ser em bom número (permite intimidades e distância) e muito diferente: tantas personalidades diferentes e cada qual com os seus problemas.
O desligar-me de mim. O cartão pica à entrada e à saída. A fisioterapeuta RAFAELA quando me faz andar nas paralelas e na piscina. O sorriso da Rosa. O grupo que já são Amigos e boa onda, unidos. O ser um desafio constante. Os horários ‘deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer’. As orientações psicológicas da Sandra e da Paula e a estagiária Catarina serem de outro nível. Os exercícios. As sessões de psicologia/conversas a abrirem a terça-feira. A TO Andrea independente, essencial e disponível. A boa disposição que passa a terapeuta Marina. A dona São estar em todo o lado sempre com carinho. A piscina que nos torna genuínos. O Luís que olha com tempo. O terapeuta da fala Henrique do Alentejo e a manobra à entrada. O piano e o samba de uma nota só. Os uivos que me faz uivar. O estar sempre em evolução. Os apoios e a leitura. Escrever ao contrário. Quando me interrompe porque já adivinhou a continuação.
O grupo de nove comigo: O PP quando entra e diz OLÁ e frases literárias tipo ‘isto é’. O Rui a dizer ‘Caramba’ e ‘eu não era capaz’. O Emanuel a prestar cuidados. O Paulo e o riso com a m… da porta. O António e a resposta com dignidade ao assédio homossexual. O Júlio e as frases de incentivo. O Filipe e o AMOR que demonstra sempre à mulher e à filha. O Venâncio a cozinhar.
Os programas diferentes na última sexta-feira de cada mês. O cartão pica à entrada e à saída. Os telefonemas. A estação das Devesas em Gaia: ser sempre deixado por alguém com carinho. O pai vir a chegar e a andar para mim sempre caminhando. Estar longe mas tão perto… E continuaria…

Importa fazer um sublinhado para a principal razão de eu estar aqui: A Novamente. Foram eles que me falaram e aconselharam a entrar neste desafio, e é a eles que estou muito agradecido também, e sobretudo, por isto.”

Zé Maria

Artur Antunes fintou a morte…

Artur Antunes

Veja aqui a entrevista do Artur, sobrevivente de Traumatismo Crânio Encefálico, no programa A TARDE É SUA – TVI.

 

Testemunho da Raquel Patrício no CRPG

A Raquel prestou o seu testemunho a familiares, amigos e profissionais do Centro de Reabilitação Profissional de Gaia.

O meu nome é Raquel Jorge e atualmente tenho 26 anos. Estou a frequentar este centro, porque tive um TCE em 2005 resultante de um atropelamento. Venho de Oeiras e fico cá no alojamento durante a semana. Encontro-me aqui, graças à recomendação da Associação Novamente. Vim para aqui, para puder ter um futuro ativo com autonomia. Ao longo destes meses tive várias atividades. Apreciei mais, do meu ponto de vista, o treino cognitivo, que tem exercicios que treinam as funções mentais: memória, atenção, raciocínio, etc.

As sessões terapêuticas ajudaram-me a ter mais consciência dos meus problemas e das minhas dificuldades. O meu problema central é que tenho insegurança sobre as minhas capacidades.

Esta minha situação atual cognitiva (falta de memória, desorientação espacial) está a melhorar através do uso de estratégias de compensação. Por exemplo, com o facto de eu já conseguir vir desde Lisboa, de comboio sozinha, também melhorei na gestão do dinheiro ou seja a aprender a aguentar-me sozinha.

As estratégias sugerem-me que planeie, registe e verifique as minhas anotações por exemplo, para me ver se consigo aguentar-me sozinha.

Para o futuro, espero arranjar mais tempo de formação ou estágio, que me abra a possibilidade de um emprego. Para começar a ganhar alguma estabilidade tanto económica como também social.

Raquel Patrício, sobrevivente de TCE a frequentar o Curso de Reabilitação Neuropsicológica do CRPG.

Sofia e a paixão pela canoagem

Colagem

Gostei muitíssimo de ter estado no encontro das diversas associações. Senti que lá todas as pessoas se veem umas às outras como iguais, isto é que toda a gente consegue dar um pouco de si, independentemente do problema que tenha, ou seja não consegui distinguir com facilidade quem estava lá a trabalho e quem era cliente. Inclusivamente estava lá um que tava a trabalhar que dizia que estar na praia a apanhar sol dava muito trabalho .

Ter estado a andar de caiaque  foi um espetáculo porque parece que me tinham lido o pensamento, ou seja, no Algarve estive a andar na canoa do meu tio e tinha vontade de ao chegar a Oeiras inscrever-me numa escola de canoagem. Passado 2 dias depois de ter chegado recebi o mail que dizia que podia fazer algo idêntico em Cascais e claro que tive que dizer que ia.

Enquanto lá estava tudo corria bem, dava para nadar à vontade, não estava muito calor, por isso estava muito bom, as viagens de caiaque correram muito bem, inclusivamente o monitor que estava comigo no caiaque sabia olhar para o lado bom da vida porque era todo amigo do ambiente, entre outras coisas, consegui dar 3 voltinhas no caiaque e foram voltinhas porque não íamos até muito longe. As 2 primeiras foram voltinhas mas, antes de começarmos a terceira perguntámos ao chefe e ele deixou-nos ir até uma pequena praia tão linda, que estava lá ao lado. Lá fomos a um local onde estavam muitas rochas, idêntico às que há numa zona da praia Dona Ana, em Lagos, que tem muito mais rochas e tem grutas.

Terminei o dia com um jantar em casa com amigas, em casa de uma delas, por isso foi perfeito.

Quero, por tudo voltar a ter dias tão bons como este, pois isto é uma forma de arejar a cabeça e ajuda-me a descomprimir. Este género de atividade ajuda tanto em termos psicológicos como físicos.

Sofia

Marta Santos

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Com as sessões da Novamente,  senti que não sou a única a ter problemas. Consegui aprender a ter muito mais paciência.

Gostei do convívio com as pessoas do grupo.

Consegui ser mais organizada! E tomei consciência das minhas capacidades/competências, coisa que me tinha esquecido completamente depois do acidente.

Ana Maria Pinto

Eu pessoalmente gosto de participar nos encontros. Para mim é tao importante, que não marco nada para o dia das reuniões. So falto em caso extremo. Apesar do meu TCE não ter consequências físicas aparentes, necessito de ajudar quem ficou em piores circunstancias. Criei amizades, sinto que já não prescindo das reuniões, porque consigo libertar-me. Sinto me bem, gosto da companhia dos outros. Como pessoa de fé, Deus é meu Amigo. Como este acontecimento, a minha vida alterou-se completamente. Gosto dos colegas, dos formadores e da maneira como decorrem as reuniões. Temos bons temas para discutir abertamente e falamos dos nossas experiencias mais particulares. Criamos amizades entre nos. Não consigo exprimir por palavras o que sente o coraçao.

Obrigado a todos.

Joaquim Ferreira

Eu tenho vindo a frequentar as sessões da Novamente assiduamente nos últimos 5 meses e tenho a dizer que têm sido sessões muito gratificantes não so para mim como penso que para todos os colegas. Sinto que quanto quando venho ca, fico melhor comigo próprio, esqueço por momentos que tive um TCE e também gostei das actividades realizadas, nomeadamente as apresentações de trabalhos de alguns colegas e do trabalho apresentado pelo Dr. Rui sobre a esquizofrenia. Tenho pena de ser de bastante longe e apos a minha estadia no CRPG, não possa vir mais.

Espero que este projeto continue, porque falta existir algo assim, sempre prontos a ajudar.

Testemunho da Rita Godinho na Rádio Estrada Viva

Oiça aqui o testemunho da Rita Godinho, sobrevivente de Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) na Rádio Estrada Viva

Vitor – “….com o carinho de todos e com a equipa médica que apanhei consegui superar…”

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No dia 18 de Maio de 2010 conduzia a minha mota, levando como destino o meu trabalho, quando um camionista não parando num Stop me levou de rastos, passando com camião por cima de mim e da minha mota.

No local do acidente fui logo reanimado entrando de seguida em coma.

Foram 2 meses de muito sofrimento para minha família onde nunca me abandonaram.

Durante esses 2 meses tive várias complicações, meningite, epilepsia e durante os primeiros 15 dias o médico dizia que se eu me salvasse iria ficar um vegetal.

Mas com o carinho de todos e com a equipa médica que apanhei consegui superar.

Quando sai dos cuidados intensivos fui para os intermédios, estive cerca de 1 semana porque tive uma recuperação fora do normal.

Quando fui para a enfermaria tive de aprender tudo de novo, comer, falar, andar e começar a reconhecer as pessoas por exemplo à minha mãe chamava lhe avó.

Em Julho fui para o Hospital dos Lusiadas onde estive ate dia 2 de Agosto.

Dia 2 de Agosto fui para Alcoitão onde estive até 26 de Novembro de 2010.

Em Alcoitão foi o meu maior desafio de fazer fisioterapia, terapia da fala e terapia ocupacional foi uma grande ajuda na minha recuperação onde minha mãe esteve comigo todos os dias ate a hora de me deitar.

Quando deixei Alcoitão tive várias dificuldades como deixar algalia que tive durante 7 meses.

Já fora de Alcoitão ia dia sim dia não fazer ambulatório a Alcoitão.

Depois tive que começar a fazer actividades sozinho como hidroterapia e fisioterapia.

No inicio tinha medo de andar na rua, mas com a ajuda de todos consegui superar tudo.

E foi quando conheci a Associação Novamente através da Vera.

A Novamente tem-me ajudado a superar vários problemas que tenho e quando tenho reuniões venho mais confiante.

Nas reuniões convivo e consigo dar-me com pessoas que têm o mesmo problema que eu, mas espero continuar a melhorar

Vitor Hugo, sobrevivente de Traumatismo Crânio Encefálico

Rita Godinho

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Tenho 42 anos tive o TCE c/ 28 anos, estou reformada por invalidez do Millennium BCP desde 2005, trabalhei desde 1994.

A minha história como sobrevivente de TCE começou em 12 de Maio de 1999 quando um acidente de viação de que resultou um TCE, que me colocou em estado de coma profundo durante 12 dias.

Embora as minhas recordações sejam desconexas, fui tentando “Misturar” o que  realmente me recordo com o que me foi relatado, a confusão por vezes é grande.

Certo é porem que as recordações mais vivas remontam ao período anterior a 1997.

Tudo o que me recordo são Flashes imediatamente anteriores ao acidente, e imediatamente posteriores ao mesmo (enquanto o meu cérebro não apagou) embora pessoas credenciadas (medica anestesista) me assegurem que entrei de imediato em coma.

O meu internamento de socorro foi feito no hospital de Sta. Mª.

Depois de 2 episódios de alergia à penicilina (ocorridos em Stª Mª) que quase me mataram, aconteceram logo após a saída de coma.

Transitei para o Hospital da CUF, onde começo c/ fisioterapia diária, nesta fase há também um grande investimento familiar de estimulação sensorial.

É na CUF que começam as recordações pós TCE.

Da CUF transitei para o Centro de Reabilitação de Alcoitão (Outubro de 1999) de onde tive alta em Março de 2000.

Onde prossegui c/ tratamentos em regime ambulatório.

A fase depois de Alcoitão passou pela Fisiológica(clinica coordenada pela Dra. Cristina Soares).

Eu fazia mto bem o meu trabalho, como tal no período pós TCE as portas não se fecharam por completo, e tentei voltar ao Banco e voltar a estudar mas eu que estava a estudar Direito (4º ano na FDUL) trabalhava na sucursal Novarede Alvalade por estar perto da Cidade Universitária.

Sei muito pouco do trabalho burocrático sem contactos proactivos c/ clientes.

Desenvolver novas competências, talvez fosse possível se a aprendizagem fosse acompanhada..

Afirmo com alguma certeza, que c/ calma pós TCE conseguimos encontrar estratégias para chegar aos fins pretendidos, conseguimos aprender coisas novas.

Mas pós TCE sou colocada nos serviços centrais do Banco no Taguspark, e como é obvio as pessoas preocupam-se em manter o seu trabalhinho não é prioritário o “serviço social”.

Penso que o Ministério do Trabalho deveria dispor de equipas multidisciplinares (a requisitar pelas empresas quando necessário) que soubessem ouvir/avaliar os sobreviventes de TCE .

Existe um curto espaço de tempo durante o qual ainda se pode salvar alguma coisa do nosso disco rígido e retomar mesmo que parte da nossa vida, no meu caso pessoal, sei que tinha muito mais agilidade mental 1 ou 2 anos depois do acidente do que agora.

Retomando a historia:

Achando que a minha recuperação não podia ter acabado,  e por ser muito teimosa, tanto procuro por uma saída que “ me aparece Cuba/Cirene”!?!?

Falo do assunto ao meu marido e nesse ano(2000) vamos a Cuba de férias, c/ uma consulta de avaliação marcada na Clinica.

Nessa consulta falam-me numa recuperação em 3 meses(!?!), obviamente regresso a Portugal e a todas as portas bati .

Em Novembro de 2001 parto para Cuba onde estive 7 meses.

Quando parti para Cuba já ia a andar, lá  aperfeiçoei a minha marcha e vivi num clima tropical com todas as vantagens e inconvenientes.

Muitas expectativas deram em muito pouco.

Como tinha referido já, foi tentada a minha reintegração laboral , em 2000 (ou seja antes do milagre prometido por Cuba) mas em moldes a meu ver desapropriados.

Fui “largada” sem competências numa realidade que me era estranha por completo.

Depois de muitas fusões e refundações após 3 anos muito atribulados peço para ser reformada .

E assim passados 14 anos já não sobrevive muito da Rita antes do TCE

Quando me perguntam porque insisto em ir ás reuniões da novamente a minha resposta é tal como os macacos que são semelhantes mas não misturam espécies também. eu me sinto bem junto de pessoas que sentem o mesmo que eu.

Na sociedade em que vivemos uma mulher deficiente de 42 anos não pode ensinar nada a ninguém pois todos se acham imunes ás ocorrências fortuitas, contudo entre pares é diferente……

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