Testemunhos

Zé Maria & Eduardo

“Múrcia (Murcia, em castelhano) é um município da província de Múrcia, na comunidade autónoma da Região de Múrcia, na Espanha. Possui uma área de 881,86 quilômetros quadrados e uma população de 422 861 habitantes (2007), com densidade populacional de 450,61 habitantes por quilômetro quadrado.

MÚRCIA já começou com bela onda, o Eduardo é um belo aparecimento, é o apoio que eu precisava!

ganhei um amigo.

regresso

Acessibilidades

Espaço

Falar assim em abstracto é vago.

Ruas largas, avenidas, espaços altos.

Parece que desde que sofri o acidente que passei a ver com outros olhos.

Andar de cadeira de rodas tornou-me mais atento para estas questões.

Todos precisamos de espaço, pense em si no metro em hora de ponta ou num estádio de futebol e diga.

Pense no mar, numa praia vazia, no céu, num sonho!

Estive em Múrcia a trabalhar sobre isto com gente paraplégica e é brutal a distância hoje de nós.

Parece discurso de emigrante.

Murcia é, hoje em dia, a cidade com mais preocupações da península Ibérica à volta deste tema.

Mesmo numa cidade com muitas preocupações sobre matérias como esta (as WC’S adaptadas são outra preocupação neste âmbito); sentimos dificuldades numa cadeira de rodas.

A gente com dificuldades motoras merece uma revolução como as houve de género e racial, não se dá por esta gente que são muitos – ‘um em cada dez pessoas’, OMS, 2002 -proponho um exercício: amanhã vais estar atento, proponho que ou repares nas pessoas em cadeira de rodas ou ainda, melhor, repares nas dificuldades que esta gente sofre.

A simples ideia das rampas em todo o lado.

Escadas não é fácil.

Passeios baixos.

Murcia em MAIO foi…

…foi um passo à frente neste momento, muito específico, do meu estágio de vida (como lhe chamo… tenho a vaidade de confiar com muita força no existir).

Este espaço e tempo de Murcia em Maio serviram-me (‘ajudar os outros, ajuda-nos! ’) como forma de construir uma etapa importante e perceber que há um grupo em cadeira de rodas que está escondido/é invisível; ainda não encontrei uma palavra que se adeque a este estado: deficiente (encontrei gente esmagadoramente ‘eficiente’ em cadeira de rodas), incapaz (sejam tão capazes de aproveitar e priveligiar o estar vivo passando o dia sem poder levantar o rabo da cadeira como certas pessoas que conheço) e outros…

Murcia tem preocupações de futuro, vi mais gente com problemas de mobilidade (em cadeira de rodas) que, normalmente, nos espaços por onde ando e tenho andado por meios muito especifícos, em 2012.

Murcia é exemplar.

Nasceu este SVE em Murcia de uma procura de um projeto que lidasse com a situação em que me encontro (sofri um TCE (Traumatismo Craneo Encefálico), não ando, sem apoio de cadeira de rodas e não falo (ou digo vogais com um tom encantador)).

‘Irreverência‘ foi o que a Rota Jovem me ensinou desde que fiz um projeto Leonardo da Vinci em Berlim em 2006.

E ‘irreverente’ foi este projeto.

De tal maneira foi bom esses quatro meses em Berlim que queria fazer algo novo mesmo depois do acidente, sabendo que, necessariamente, seria diferente.

Logo, precisava de um apoio e de um projeto que me desse alguma segurança.

Depois, havia uma necessidade que parecia desde o início jogar contra isto e que pode parecer banal, mas não é: a necessidade que existe numa relação terapêutica de soltar amarras, a pessoa/a corda que nos dá segurança quer que nos soltemos dela mesmo.

Um pouco como os pais e professores fazem com filhos e alunos, preparam-nos para voar.

Foi um projeto-pioneiro, irreverente.

Encontrámos Murcia faltava compreender que género de projeto iriam ter para mim.

Era necessário alguém que me quisesse apoiar.

Tentámos o mais óbvio, alguém que fosse aluno de enfermagem ou fisioterapia estivesse submetido a um estágio curricular, o SVE (Serviço Voluntário Europeu) cobria as despesas e daria apoio ao Ayuntaimento na Sección de La Juventud de Murcia e ainda a um centro – o ASPAYM, Murcia:

http://www.aspaymmurcia.org/ – uma Associação de Paraplégicos e Grandes Incapazes Fisicos da Câmara Municipal de Murcia. Não resultaram as várias abordagens.

Encontrámos um achado, o Eduardo S.!

Alguém que desde o inicío me fez ver o raio de luz que entra pela janela ao longe e fugir de mim e do acidente.

Ele é um licenciado em cinema, um city-tour guide, um cozinheiro, um expert em powerpoints, um jardineiro; ele é o Eduardo!

‘La Asociación de Parapléjicos y Grandes Discapacitados Físicos (ASPAYM) de La Comunidad Autónoma de Murcia tiene como seña de identidad, trabajar para mejorar las condiciones de vida Del colectivo de personas con discapacidad en general, y lesionados medulares en particular. Para ello, cada año, renovamos nuestro esfuerzo con programas y actividades en las que participan nuestros socios.’

Além disso, dei apoio linguístico na web da página do ‘Ayuntamento, sección de La Juventud de Murcia’ (uma secção da Camara Municipal).

Murcia são sorrisos, ‘a vida deve ser encarada não como um direito, mas como um privilégio’ (filme ‘hotel marigold’).

A Maria do M. foi uma pessoa paraplégica que chegou sem se notar mas que vincou ser Alguém importante em conhecer, no seu cadeirão com a Luna (a cadela), correndo ao lado, vincou ter uma alma Enorme.

Ola e hasta luego

OLA banzao-sintra.

Ola e hasta luego são duas formas simples de obrigar boa disposição e dar sorriso fácil ao outro.

Não que seja preciso obrigar, mas suscitar esse cuidado.

Ninguém é mais giro maldisposto.

Somos todos mais giros bem dispostos.

HASTA-LUEGO Murcia!!!

Mediterrâneo playa, los narrejos

Round one: dps do engate habitual à entrada da água.

Pergunta a Vanessa de oito anos ao Juan de oito anos também:

‘queres ser meu amigo?’

‘vale!’ diz o Juan.

É fácil nascer a amizade…

Round two: a vanessa é a verdadeira predadora da amizade.

Passado pouco tempo lá está ela empoleirada na prancha de bodyboard do seu novo amigo enquanto ele a puxa pelas ondas e ela gaba-se para quem passa:

‘o Juan é o meu novo amigo’ (como podem ver, digo eu).

Foi um primeiro passo pela Rota Jovem, Cascais, Portugal, um projeto nesta área que, na minha opinião teve bons resultados e deve ser repetido com outra gente.

Esta ideia foi um passo arriscado, mas que se revelou firme.

‘Pelo sonho é que vamos’ (Sebastião da Gama) parece sobressair deste ‘Maio em Murcia!”

By Zé Maria B.

João Figueira – Sobrevivente TCE

O João Figueira é um jovem sobrevivente de TCE, consequência de um acidente de viação.

Em 2007, o João e mais dois amigos resolveram arrancar com um projeto denominado “Travões, trambolhões e muitas complicações”. Este projeto é um programa de educação rodoviária virado para alunos e estudantes de diferentes estabelecimentos de ensino, por se tratarem de camadas sociais que adotam por vezes comportamentos de risco na estrada e dão azo a acidentes de viação.

Após percorrer vários estabelecimentos de ensino em Portugal, o programa chegou a Moçambique (cidade da Beira, província de Sofaia) e tem como principais objetivos: a promoção e incrementação de normas de conduta nas vias públicas, aclaração de riscos e traumas que resultam de sinistros rodoviários, bem como os métodos de atuação em emergência no que diz respeito à prevenção e socorro. Tem ainda como outros objetivos: a identificação das principais causas de sinistralidade na estrada, consciencialização do público-alvo para a necessidade de conhecer as suas capacidades e limitações no papel de utentes da vida pública e sensibilizar através do conhecimento de experiências reais.

O João dá o seu próprio testemunho da experiência que passou quando há 13 anos ele e uns amigos conduziam sob o efeito de álcool, sofreram um acidente e o próprio ficou hospitalizado durante um ano. Começou de novo a acreditar e iniciou a sua reabilitação.  Hoje em dia abraçou este projecto como um projecto de vida para chegar a cada vez mais jovens e estes terem conhecimento da sua experiência num acidente de viação, bem como as consequências graves e pesadas decorrentes do acidente.

 

Vice Presidente da BIF

A novamente está integrada na BIF (Brain Injured and Families Confederation). A BIF é composta por associações similares à nossa, de outros 18 países europeus. Tem como objetivo trocar experiências, defender os direitos do TCE e suas famílias/cuidadores, localmente, internacionalmente e na União Europeia, diretamente com o Parlamento. Para tal, temos um lugar como delegados membros na EDF. A EDF tem desenhado, entre outros, o grande projeto Freedom of Movement, sobre o qual, o nosso vice presidente dá o testemunho sobre liberdade de acesso no caso dos sobreviventes de TCE.

Louvor do Salvador Rabaçal Dias – Sobrevivente TCE

Leia o “Louvor” que o Salvador Rabaçal Dias escreveu para a NOVAMENTE

LOUVOR

Paulo Matos Sequeira – Sobrevivente TCE

O Paulo escreveu um livro a contar a sua experiência e percurso pós TCE, de seu nome ” Estranho Milagre da Vida”.

Deixamos aqui um breve resumo.

“Tudo começou no dia 2005-12-11 quando regressava de Lisboa, fui albarroado por um automóvel desgovernado que me atirou para fora da estrada, tendo o carro sido objecto de múltiplos e sucessivos capotamentos assistido no local do acidente por uma equipa do INEM apresentava um GCS de 4 valores (o estado de coma varia entre 1 a 15). Perdi os sentidos, fomos desencarcerados, sedado e ventilado. Internado no HSM em Lisboa e diagnosticado um traumatismo crânio encefálico, facial e cervical e mais adiante uma infecção respiratória.

Sem me ter apercebido passei pelo estado NDE (near dead experiance). Tive a percepção de estar acordar no meio de um pesadelo e de tudo ser real. É uma situação assustadora e inimaginável.

Relativamente à recuperação esta revelou-se lenta, com altos e baixos mas sempre de pendor ascendente. Estava num momento alto da minha vida profissional e vejo-me remetido para uma situação rasteira. Com muito esforço soube tornear e suplantar a situação, aquilo que os filósofos gregos designam por ascese purificadora. Tive a ajuda de muitas pessoas, citando à cabeça o meu irmão e a Teresa. Foi particularmente relevante a circunstância dos meus filhos não terem sofrido uma beliscura, mas “apenas” danos morais. Socorri-me dos meus pais, sempre presentes, de um núcleo duro de amigos, sobre os quais não tinha qualquer dúvida e de pessoas que sem saberem contribuiram decisivamente para a recuperação Houve outros que nada fizeram mas não guardo qualquer rancor, significam para mim o que demonstraram significava para eles.

Este relato é um singelo contributos para todos aqueles que passam situações semelhantes, demonstrando que vale a pena lutar, é o nosso bem-estar fisico e mental que está em jogo – o maior dos valores.”

Fonte: “Estranho Milagre da Vida” – por Paulo Sequeira Matos

Mª José Costa – Sobrevivente de TCE

“Bom dia,

O meu nome é Mª José Costa, tenho 40 anos, resido em Vila Real e já fui alvo de 2 traumatismos cranio encefálicos. Um deles ocorreu como resultado de um acidente de viação. Não levava cinto (na época não era obrigatório dentro das localidades), era 1/12/90, estava no 1º ano da faculdade, e visitava a região onde a colega de quarto habitava. Numa curva, a colega (ao volante), perdeu o controle da viatura com o gelo da estrada, e fomos embater noutra viatura que vinha em sentido  contrário. Arrastámos o outro carro cerca de 20m…acordei debaixo do tablier com muitas dores de cabeça e fui de imediato transportada para o hospital local. Após o diagnóstico, e porque tinha receio de contar o sucedido aos meus pais, decidi sair do hospital assinando termo de  responsabilidade. Nos dias seguintes, tive episódios de vómitos que me levaram de novo ao hospital, já na cidade onde estudava. Fiquei internada, e apercebi-me que não me recordava de certos factos do passado…quando tive alta, os resultados académicos foram um total fracasso! Cruzava com pessoas das quais não me lembrava, contavam-me episódios dos quais não tinha memória, mas não percebia pois lembrava-me de coisas bem mais antigas.Mais tarde, em 2006, um mergulho mal dado na piscina, acabou no hospital, pois caí em parafuso no fundo da piscina, e bati com a cabeça no fundo feito de betão! Dei entrada na urgência acordada, com um buraco no crânio, muitos traumatismos pelo corpo fora, não conseguia mexer os braços, o pescoço, tinha imensas dores…fui de imediato sedada e após muitos exames, deram o diagnóstico – TCE com contusão cerebral. Não parava de vomitar e não tinha equilíbrio…

Quando tive alta, contiuava a não ter equilíbrio e não me segurava de pé! Fiz muita fisioterapia, e 6 meses depois recuperei.Hoje sigo a minha vida normalmente. Dessa vez,a memória não foi afectada (pelo menos mais do que da outra vez), mas sinto que o meu humor e forma de estar foi alterado! Tornei-me uma pessoa mais firme, mais dura, e mais forte! Não pelo episódio, mas sinto que a partir dessa data mudei, e isso é facto reconhecido pelos familiares. Passei a ser mais corajosa…um ossso mais duro de roer…A medicina não é a minha área, mas creio que o TCE de 2006 alterou a minha personalidade…e para melhor!”

Mª José Costa

 

Eunice Afonso – Sobrevivente de TCE

“Chamo-me Eunice Afonso e fui cliente do Centro de Reabilitação Profissional de Gaia devido a um traumatismo crânio encefálico consequência de um acidente de viação ocorrido em 2001.

Desde a adolescência que me diferenciei muito das pessoas da minha idade. O dinheiro que elas gastavam em roupa, eu gastava-o em livros, era viciada na leitura. Aos 16 anos fui estudar para Braga e a minha professora de filosofia marcou-me muito, chorou quando me entregou um teste (no qual tirei 16/20 valores), tendo respondido a uma das seis perguntas que continha, disse-me que era raro encontrar, na minha idade, pessoas a questionarem-se assim sobre a “razão de ser das coisas”.

Aconselhada por uma irmã, fui para a Cooperativa Árvore no Porto fazer um curso técnico-profissional de Conservação e Restauro/Pintura (atrasei um ano nos meus estudos). Visto que apenas tinha 15 valores não entrei no curso superior e candidatei-me para Educação Visual e Tecnológica na ESSE do Instituto Politécnico de Bragança. Lecionei nas ilhas, apaixonei-me pela ilha do Pico nos Açores, onde ia comprar casa quando sofri o acidente. Sofri um traumatismo crânio encefálico, consequência desse acidente de viação ocorrido em 2001.

Estive em estado comatoso durante três meses. Acordei cega e comecei a minha luta para recuperar, em primeiro lugar, da cegueira que durou 3 semanas, para depois descobrir que não conseguia andar e, assim, permaneci no Hospital de São João do Porto, onde fazia fisioterapia e terapia ocupacional pois a lesão afetou muito o cerebelo facto que me fazia ter uma espasticidade incomodativa.

Nos primeiros anos nem sequer conseguia tomar banho sozinha e, em termos neuropsicológicos, apenas estava, não era alguém capaz de tomar decisões por si própria ou de fazer juízos de valor.

Os progressos durante a minha permanência no Hospital de São João foram diminutos quiçá porque o meu cérebro ainda não estava preparado para melhorar.

Após este internamento fui para o Centro de Medicina de Reabilitação do Alcoitão onde estive durante cinco meses, em 2003.

Continuei a não conseguir tomar banho de forma autónoma.

Atribui as poucas melhorias que tive à razão já apresentada anteriormente, o meu cérebro não permitia (nem chorar). No entanto, foi importante para mim. Conheci casos de diferentes pessoas, de várias idades, que não eram nem melhores nem piores que o meu, simplesmente aconteciam.

Ainda em busca de melhorias fui para Cuba onde permaneci no CIREN durante dois meses. Apesar das melhoras não terem sido muitas consegui começar a caminhar com a ajuda de um andarilho.

O meu cérebro começava a permitir melhorar mas, por fatores económicos e outros, voltei de Cuba.

No entanto, apesar das lesões que eu sabia ter, a minha maior preocupação era relativa á minha vida laboral e daí a luta por autonomia.

Consegui ingressar no Centro de Reabilitação Profissional de Gaia onde, para além de ter uma formação muito ligada às Novas Tecnologias da Informação e Comunicação, tive um excelente tratamento neuropsicológico com o qual, aos poucos, fui crescendo como pessoa.

Voltei para casa e os meus pais tinham acondicionado o WC e o quarto o melhor que sabiam. Após uma fase de adaptação já conseguia tomar banho sozinha.

Continuei sempre a interessar-me pela informática. Ainda em Gaia, tinha feito uma tentativa para entrar no mestrado da Universidade Aberta em Comunicação Educacional Multimédia mas não fui aceite.

Os anos passaram e, em 2007, recomecei a lecionar ficando colocada em Marco de Canavezes. Depois, desloquei-me para sul à procura do calor que me permitiria um quotidiano minimamente normal, lecionando em Albufeira, não fosse o caso de sentir, no sul, uma frivolidade e uma discriminação desmesuradas.

Mais uma vez, fiquei colocada no Algarve, em Lagoa e, mesmo concorrendo a nível nacional, voltei a ser colocada no sul, em Quarteira.

No momento em que redijo este documento chego à conclusão que prefiro viver mais a Norte pois, apesar do frio, prefiro o calor humano.

Também tenho pensado que, tal como até aqui, nunca serei bem aceite pelos meus colegas de profissão e as limitações motoras, como ser lenta a teclar e não poder escrever à mão, que restaram vão-me obrigar a desistir da minha área profissional ou então a fazer enormes alterações.

Quando ainda saudável, fiz um curso de Conservação e Restauro no qual aprendi varias técnicas de pintura que hoje se mostram invulgares, como por exemplo, a pintura com leite ou vinagre misturados com óxidos de ferro, que são muito económicas e produzem efeitos interessantes. A minha proposta passará por aqui e pelas artes Multimédia ou pela Comunicação à distância visto muitos deficientes não poderem deslocar-se das suas áreas geográficas e, é sempre bom, comunicar com alguém que já passou pelos mesmos problemas ou semelhantes. Devo dizer que em 2011 fui, finalmente, aceite no mestrado da Universidade Aberta em Comunicação Educacional Multimédia que ainda não terminei.

Voltando ao passado, passei de ser professora a ser uma deficiente sem valor algum para a sociedade, talvez existam mais deficientes a sentir isto. Este valor terá de advir dos nossos comportamentos, atitudes e perseverança em permanecer assertivos.

De qualquer modo estou disposta a exercer qualquer função para a qual me julguem útil como formadora ou animadora de sessões, sabendo de antemão que tenho de me preparar devidamente para o desempenho da mesma.

Valem-me os conhecimentos já adquiridos e esta recente descoberta da Educação Cooperativa para o Desenvolvimento através da escola. A ED ser-me-á extremamente útil no meu trabalho com pessoas sobreviventes, tal como eu de TCE, infelizmente a maioria delas têm pouca formação, geralmente quem passa por esta situação sofre um grande desgaste psicológico acabando por centrar-se demasiado em si próprio, perdendo o interesse pelo mundo em que se insere.

Pretendo, enquanto formadora insistir e envolve-los/as neste mundo partindo da arte. Dar a conhecer modos invulgares de criar, personagens importantes da literatura, pintura e música, da cultura portuguesa, promovendo debates centrados em temas pessoais, artísticos e sociais.

Segundo o que li nas minhas pesquisas sobre ED, ficou manifesto o interesse em ser divulgada em diversas instituições, os centros de reabilitação configuram-se-me como instituições com pouco interesse mas posso dar a certeza de serem aqueles que mais têm a ganhar com intervenções desse âmbito.

Não compreendo. Realmente não compreendo!

Brincam com o nosso futuro, com os cidadãos do futuro, como se de nada importante se tratasse, mas a realidade é esta e só esta, estão a brincar com o nosso futuro. Surgem-me agora com uma nova proposta de currículo na área de EV, sendo este muitíssimo mais simples que o anterior. O professor da disciplina passará a ser apenas um, facto que já denota trazerem “água no bico” a proposta que nos trazem é vergonhosa, eu não tenho nada com isso, pois pretendo voar para outras paragens mas preocupa-me tal desproposito e desrespeito. Infelizmente hoje em dia pouco posso fazer mas é com muita tristeza que abandono e possuo lucidez suficiente para perceber que isto não está a ser bem feito.

Assim termino a conclusão sobre o meu trabalho Temáticas da Educação para o Desenvolvimento, deixando um bem-haja à Universidade Aberta, ao curso e à formadora Susana que muito contribuiu para equilíbrio emocional”

Eunice Afonso

Hélder Domingues – Sobrevivente TCE

“Eu, um jovem de 17 anos, no dia 21 de Dezembro de 2011, ia para os treinos da equipa de futebol por uma estrada secundária num ciclomotor.
Quando ia a cruzar a estrada principal, devido à presença de um sinal publicitário que cortou totalmente a visibilidade, deixei passar 2 veículos mas não vi um 3º veículo. Quando decidi atravessar a estrada, foi o preciso momento em que o veículo me atingiu, este ia em direção norte.
Fracturei a clavícula esquerda, a bacia do lado esquerdo e tive um Traumatismo Crânio-Encefálico (TCE).
Com tudo isto passei 3 semanas em coma induzida, 3 dias nos cuidados intermédios e ao todo 3 meses no Hospital de Braga.
Após 3 meses em Braga foi-me dada alta sem motivo. Ainda hoje não ando sem apoio externo (ainda necessito de apoio de uma canadiana), no entanto presumo que em “breve” poderei andar sem apoio algum.
Com isto tudo perdi um ano escolar o que é de menos e muitos dos laços e capacidades que possuía. No entanto, outros foram fortificados e ainda criados.
A minha salvação foi um membro do INEM que saía do serviço e passou por mim e me viu caído no chão a sufocar com sangue que fora libertado quando o acidente ocorreu. Medicou-me correctamente e permitiu que estivesse aqui para contar a história a todos vós.
Foi me feita uma transfusão de sangue pois as hemorragias fizeram-me libertar imenso sangue.
Estou a ter uma recuperação considerada impressionante o que não acho pois já estou nesta situação à 6 meses. Faz no dia 21 deste mês.
Neste momento já treino uma só canadiana e por vezes ando sem apoio.”

Hélder Domingues – 7 de Junho de 2012

Joana Afonso Machado – Cuidadora STCE

“Boa Tarde, desculpem a intromissão mas será que poderiam partilhar este pequeno texto que escrevi em honra do meu irmão?

“Quero partilhar consigo a história do meu irmão, que é um rapaz de 18 anos.

Ele sofreu um acidente de mota, não sabemos como nem quem foi. Ele voltava para casa depois de ter estado meia-hora no café com os amigos…e já passava da meia-noite. Sabemos que houve uma senhora polícia, que na altura ia para casa, viu o meu irmão deitado no chão. Chamou de imediato o INEM, que (por mais incrível que pareça) chegaram rápido. Ela prestou-lhe auxílio, o que encurtou as hipóteses de ter lesões muito mais graves do que poderia ter. Mal o INEM chegou, ele queria levantar-se e ir para casa, mas não deixaram. Vomitou… e os paramédicos sedaram-no e induziram-no em coma de imediato. A minha mãe estava em casa sozinha e o meu pai a trabalhar… eu estava em Évora, onde estou a fazer o mestrado.

Três polícias vieram a minha casa pedir à minha mãe para ir buscar os pertences do meu irmão… ainda nem era 1h da manhã…

Ele foi de imediato para o hospital de Santa Maria, onde lhe fizeram um raio-x e depois uma TAC… traumatismo cranio-encefálico com hemorragia no lobo esquerdo…

Disseram-nos que ele poderia não sobreviver…que caso sobrevivesse poderia ficar em estado vegetal…poderia não mexer o lado direito, poderia não falar, poderia não nos compreender… Isto foi dia 28 de Janeiro de 2012… o meu irmão sobreviveu às 72h mais críticas… Ficou semana e meia em coma induzido… Passado três semanas após o acidente fizeram-lhe uma cranioplastia, pois tinham posto o ossito da cabeça na zona abdominal esquerda.

Dia 23 de Fevereiro deram-lhe alta médica.

Dia 22 de Março deu entrada em Alcoitão para fazer reabilitação.

Entre a saída do hospital e a entrada em Alcoitão, o meu irmão (já andava, claro) começou a falar melhor, a comer sozinho, quis dormir na cama dele, entre outras coisas. A única coisa que ele não quis foi ficar em casa. Cabeça rapada, ainda com os agrafos da cranioplastia, magrinho, não lhe importava, mas ele queria ir ver os amigos que não puderam ir vê-lo, quis ver os que o foram ver, quis ver o céu que da janela do hospital era só um pedacinho cortado pelas persianas…

Hoje ele está a uns 70%, precisa de terapia da fala e de actividades ocupacionais para ginasticar o cérebro. Mas o orgulho que sinto a olhar para ele… Bolas, é mesmo um herói este meu irmão.

Também me revoltei, também duvidei, mas não fui capaz de deixar de acreditar no meu irmão. Além da minha dor, tive de lidar com a dor horrível que os meus pais sentiam, a culpa que eles sentem, mas nunca deixei de lhes dizer que o meu mano ia conseguir, que ia ficar o Tiago que conhecíamos.

Disseram-nos que o meu irmão não ia ser o mesmo… e não é. Está mudado, claro, assim como nós. Quem é que não gostaria de uma segunda oportunidade?”

Leia o testemunho do Frederico Dias – Sobrevivente TCE

“No dia 30/11/2002, tive um acidente de mota do qual resultou um período de coma de 28 dias (14 dos quais ligado ao ventilador), perda de massa encefálica do lado direito e por consequência resultou a paralisia esquerda e factura da c2 (Axis). Passei o mês seguinte no Hospital São Francisco de Xavier.
Após isso tive 5 meses no Hospital da Marinha e saí de lá em Maio de 2003. Depois tive 1 ano no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão em serviço ambulatório, saindo de lá em Outubro de 2004.
Após isso fiz uma vida normal dentro das possibilidades pois fiquei quase a 100%. Durante esse tempo saí dos fuzileiros, tirei o curso de recepcionista e ia fazendo a manutenção da minha condição física em casa, pois tenho uns aparelhos de musculação.
Tive vários empregos de curta duração, mas infelizmente na consegui fixar-me em nenhum, com muita pena minha.
Para finalizar, em Maio de 2010 fui alvo de uma agressão, que teve como consequência o retrocesso de tudo aquilo que tinha recuperado e me meteu nesta situação de dificuldade em que me encontro hoje”.

O Frederico Dias Ferreira é um dos muitos casos que contactam a novamente em busca de apoio e ajuda para começar a acreditar de novo numa nova vida com esperança para o futuro. Neste momento o Frederico, com o acompanhamento da novamente, está a procurar emprego. Houve passos importantes e positivos para chegar ao emprego tão desejado e esperemos que em breve tenhamos um testemunho do proprio a contar a sua experiência positiva no seu novo trabalho. Boa sorte Frederico!

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