Deolinda, amor de mãe

A vida nem sempre permite escrever, por vezes o desânimo é tanto que acho melhor não escrever do que dizer o que não gostam de ler e por vezes é o que mais apetece é dizer o que nos vai na alma, mas como sempre prefiro guardar para mim o menos agradável, a maior parte das vezes o coração está sangrando mas dos lábios sai um sorriso, um sorriso que não deixa transparecer o que vai cá dentro,sim porque ninguém tem culpa do que nos vai na alma, considero-me forte,nem sempre assim é, por vezes vou abaixo, mas raramente alguém nota esse enfraquecimento, nem os que estão tão perto de mim dão por isso,choro!…Sim choro muitas vezes, oh quantas vezes choro, mas sempre no silêncio do meu quarto, por isso todos dizem que “guerreira”, “que mulher forte”, “como consegue estar sempre bem disposta”, “como consegue sobreviver a tal desgraça”, o certo é que tenho conseguido, eu também pensava que se algo assim tão drástico entrasse na minha vida não conseguia ser corajosa a este ponto, eu também achava que não conseguiria aguentar tal dor, mas o certo é que tenho conseguido e tenho ultrapassado tantas coisas más, a minha infância nunca foi famosa, fui privada de tudo, até de ser amada por meus pais ou familiares, fui crescendo, tive algumas amizades, tenho algumas recordações da minha adolescência, mas são só recordações, por vezes sonho com certos momentos que passei, bons momentos, revivo-os como se estivessem presentes, lembro as pessoas e gostava de rever algumas, mas não passa, de recordações e de sonhar estar nesses momentos, apenas sonhos, casei, tive filhos, acabei por os criar sozinha, tentei dar-lhe muito mais do que me deram e dar-lhe o melhor que conseguia, dei-lhes o melhor que consegui e estou de bem comigo, não conseguia fazer melhor, mas apesar de estar satisfeita porque nunca me deram desgostos de serem más pessoas e más influencias, sempre se portaram bem, nunca tive queixas de que maltratassem alguém nem que fossem mal criados com alguém, mas eles não pensam de mim o mesmo, queriam mais de mim, talvez não seja meiga nem carinhosa, talvez não lhe dissesse amo-vos, mas toda a minha vida foi dedicada a eles e estive e estou sempre com eles, trabalhei arduamente para lhes dar o essencial, e dei o que muitos com pai e mãe não têm, sempre que precisaram e precisam aqui estou eu presente, a minha vida é dedicada só a eles, deixei de ter vida própria, deixei de pensar em mim como ser humano, desde há 20 anos vivo só para eles, deixei de amar, de passear, de ir ver o mar, de dançar e de há mais de um ano a esta parte até deixei de sair, tudo em beneficio dos meus filhos, a vida não permite, poupo, poupo, mas ainda conseguimos ter dinheiro para comer no dia a dia, mas olho e que vejo eu da minha vida!… Da minha vida como pessoa, sem pensar neles e pensar em mim, nada vejo, nada sinto, a tristeza toma conta de mim, cada dia me sinto mais triste, mais metida comigo, mais sem vontade de sair, sem vontade de ver pessoas, sem vontade de conviver e até sem vontade de fazer o que mais gostava de fazer na vida!… DANÇAR!… Gostava tanto de dançar, gostava tanto de rir, gostava tanto de ser feliz, gostava de tanta coisa que não fiz, de tanta coisa que não vivi.
Mas a vida é assim temos de fazer opções e eu fiz a que achei melhor e vivi e continuo a viver para os filhos, o único sonho para que vivo e quero muito que seja concretizado é o sonho do meu filho David, (voltar a andar sozinho) sei que vamos conseguir e quero muito que a doença da minha filha não se desenvolva negativamente, ela tem uma doença incurável, (Esclerose Múltipla), dois anos após o acidente do David, a minha filha deu entrada no Hospital São José com dores de cabeça, esteve ligada às máquinas no mesmo serviço e na mesma cama em que o David deu entrada, com a diferença que o David estava em coma e a minha filha acordada e saiu ao fim de 20 dias com este triste diagnóstico. Já lá vão 10 anos, lutas contra todos os diagnósticos e fomos contornando obstáculos e continuamos a contorná-los, o meu filho vai melhorando e peço muito a Deus que me alivie e não permita que tenha de viver o resto de todos os dias da minha vida a ajudar a dependência física dos meus filhos. Acho que Deus me vai dar um pouco de sossego e os anos já não me deixam ter a força que tinha, as forças vão faltando, cada dia me sinto com menos forças e cada dia mais me recolho no sossego do meu lar.

Mas eu só quero que meu filho volte a andar sozinho, quero muito isso e trabalhamos arduamente para que isso seja uma realidade.
Há dias conheci a associação novamente e acho-os fantásticos no pouco que já lidei com eles, são muito positivos e sempre muito preocupados em nos ajudar e saber que estamos bem, em saber se  os encontros estão a dar bons frutos e estão mesmo, sinto-me mais acompanhada, que bom que tem pessoas que se preocupam com quem está debilitado de tanto sofrer e saber mais sobre o que afectou o meu filho esta a ser bom. Obrigado a todos vós e o meu filho começou de novo a  fazer Fisioterapia e já convivemos mais um pouco e estamos menos metidos connosco mesmos.
Foi apenas um desabafo,por vezes precisamos dizer o que nos vai na alma e no coração,tenho pouco momentos de tirar para fora, sempre vivi a esconder o sofrimentos para me proteger.
Apesar de tudo sou feliz,triste,mas feliz e agradecida a Deus que nunca me abandonou.

Deolinda, cuidadora de um sobrevivente de TCE

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