Eunice Afonso – Sobrevivente de TCE

“Chamo-me Eunice Afonso e fui cliente do Centro de Reabilitação Profissional de Gaia devido a um traumatismo crânio encefálico consequência de um acidente de viação ocorrido em 2001.

Desde a adolescência que me diferenciei muito das pessoas da minha idade. O dinheiro que elas gastavam em roupa, eu gastava-o em livros, era viciada na leitura. Aos 16 anos fui estudar para Braga e a minha professora de filosofia marcou-me muito, chorou quando me entregou um teste (no qual tirei 16/20 valores), tendo respondido a uma das seis perguntas que continha, disse-me que era raro encontrar, na minha idade, pessoas a questionarem-se assim sobre a “razão de ser das coisas”.

Aconselhada por uma irmã, fui para a Cooperativa Árvore no Porto fazer um curso técnico-profissional de Conservação e Restauro/Pintura (atrasei um ano nos meus estudos). Visto que apenas tinha 15 valores não entrei no curso superior e candidatei-me para Educação Visual e Tecnológica na ESSE do Instituto Politécnico de Bragança. Lecionei nas ilhas, apaixonei-me pela ilha do Pico nos Açores, onde ia comprar casa quando sofri o acidente. Sofri um traumatismo crânio encefálico, consequência desse acidente de viação ocorrido em 2001.

Estive em estado comatoso durante três meses. Acordei cega e comecei a minha luta para recuperar, em primeiro lugar, da cegueira que durou 3 semanas, para depois descobrir que não conseguia andar e, assim, permaneci no Hospital de São João do Porto, onde fazia fisioterapia e terapia ocupacional pois a lesão afetou muito o cerebelo facto que me fazia ter uma espasticidade incomodativa.

Nos primeiros anos nem sequer conseguia tomar banho sozinha e, em termos neuropsicológicos, apenas estava, não era alguém capaz de tomar decisões por si própria ou de fazer juízos de valor.

Os progressos durante a minha permanência no Hospital de São João foram diminutos quiçá porque o meu cérebro ainda não estava preparado para melhorar.

Após este internamento fui para o Centro de Medicina de Reabilitação do Alcoitão onde estive durante cinco meses, em 2003.

Continuei a não conseguir tomar banho de forma autónoma.

Atribui as poucas melhorias que tive à razão já apresentada anteriormente, o meu cérebro não permitia (nem chorar). No entanto, foi importante para mim. Conheci casos de diferentes pessoas, de várias idades, que não eram nem melhores nem piores que o meu, simplesmente aconteciam.

Ainda em busca de melhorias fui para Cuba onde permaneci no CIREN durante dois meses. Apesar das melhoras não terem sido muitas consegui começar a caminhar com a ajuda de um andarilho.

O meu cérebro começava a permitir melhorar mas, por fatores económicos e outros, voltei de Cuba.

No entanto, apesar das lesões que eu sabia ter, a minha maior preocupação era relativa á minha vida laboral e daí a luta por autonomia.

Consegui ingressar no Centro de Reabilitação Profissional de Gaia onde, para além de ter uma formação muito ligada às Novas Tecnologias da Informação e Comunicação, tive um excelente tratamento neuropsicológico com o qual, aos poucos, fui crescendo como pessoa.

Voltei para casa e os meus pais tinham acondicionado o WC e o quarto o melhor que sabiam. Após uma fase de adaptação já conseguia tomar banho sozinha.

Continuei sempre a interessar-me pela informática. Ainda em Gaia, tinha feito uma tentativa para entrar no mestrado da Universidade Aberta em Comunicação Educacional Multimédia mas não fui aceite.

Os anos passaram e, em 2007, recomecei a lecionar ficando colocada em Marco de Canavezes. Depois, desloquei-me para sul à procura do calor que me permitiria um quotidiano minimamente normal, lecionando em Albufeira, não fosse o caso de sentir, no sul, uma frivolidade e uma discriminação desmesuradas.

Mais uma vez, fiquei colocada no Algarve, em Lagoa e, mesmo concorrendo a nível nacional, voltei a ser colocada no sul, em Quarteira.

No momento em que redijo este documento chego à conclusão que prefiro viver mais a Norte pois, apesar do frio, prefiro o calor humano.

Também tenho pensado que, tal como até aqui, nunca serei bem aceite pelos meus colegas de profissão e as limitações motoras, como ser lenta a teclar e não poder escrever à mão, que restaram vão-me obrigar a desistir da minha área profissional ou então a fazer enormes alterações.

Quando ainda saudável, fiz um curso de Conservação e Restauro no qual aprendi varias técnicas de pintura que hoje se mostram invulgares, como por exemplo, a pintura com leite ou vinagre misturados com óxidos de ferro, que são muito económicas e produzem efeitos interessantes. A minha proposta passará por aqui e pelas artes Multimédia ou pela Comunicação à distância visto muitos deficientes não poderem deslocar-se das suas áreas geográficas e, é sempre bom, comunicar com alguém que já passou pelos mesmos problemas ou semelhantes. Devo dizer que em 2011 fui, finalmente, aceite no mestrado da Universidade Aberta em Comunicação Educacional Multimédia que ainda não terminei.

Voltando ao passado, passei de ser professora a ser uma deficiente sem valor algum para a sociedade, talvez existam mais deficientes a sentir isto. Este valor terá de advir dos nossos comportamentos, atitudes e perseverança em permanecer assertivos.

De qualquer modo estou disposta a exercer qualquer função para a qual me julguem útil como formadora ou animadora de sessões, sabendo de antemão que tenho de me preparar devidamente para o desempenho da mesma.

Valem-me os conhecimentos já adquiridos e esta recente descoberta da Educação Cooperativa para o Desenvolvimento através da escola. A ED ser-me-á extremamente útil no meu trabalho com pessoas sobreviventes, tal como eu de TCE, infelizmente a maioria delas têm pouca formação, geralmente quem passa por esta situação sofre um grande desgaste psicológico acabando por centrar-se demasiado em si próprio, perdendo o interesse pelo mundo em que se insere.

Pretendo, enquanto formadora insistir e envolve-los/as neste mundo partindo da arte. Dar a conhecer modos invulgares de criar, personagens importantes da literatura, pintura e música, da cultura portuguesa, promovendo debates centrados em temas pessoais, artísticos e sociais.

Segundo o que li nas minhas pesquisas sobre ED, ficou manifesto o interesse em ser divulgada em diversas instituições, os centros de reabilitação configuram-se-me como instituições com pouco interesse mas posso dar a certeza de serem aqueles que mais têm a ganhar com intervenções desse âmbito.

Não compreendo. Realmente não compreendo!

Brincam com o nosso futuro, com os cidadãos do futuro, como se de nada importante se tratasse, mas a realidade é esta e só esta, estão a brincar com o nosso futuro. Surgem-me agora com uma nova proposta de currículo na área de EV, sendo este muitíssimo mais simples que o anterior. O professor da disciplina passará a ser apenas um, facto que já denota trazerem “água no bico” a proposta que nos trazem é vergonhosa, eu não tenho nada com isso, pois pretendo voar para outras paragens mas preocupa-me tal desproposito e desrespeito. Infelizmente hoje em dia pouco posso fazer mas é com muita tristeza que abandono e possuo lucidez suficiente para perceber que isto não está a ser bem feito.

Assim termino a conclusão sobre o meu trabalho Temáticas da Educação para o Desenvolvimento, deixando um bem-haja à Universidade Aberta, ao curso e à formadora Susana que muito contribuiu para equilíbrio emocional”

Eunice Afonso

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