Testemunho – Salvador Rabaçal – Sobrevivente STCE

07/09/2011

No facebook, num fórum de discussão iniciado pelo Salvador Rabaçal, alguém respondeu a uma questão da seguinte forma:

Pessoas com um TCE, não são APENAS pessoas que tiveram azar … são pessoas que lutam por si próprias em pormenores que aos outros sai de borla!
São pessoas que passaram a dar um valor à vida de uma forma bem diferente.
São pessoas que passaram a saber quem os ama e não larga, luta, sofre e alegra-se com eles! (…)

O Salvador respondeu:

Eu revejo-me em toda e qualquer destas palavras.
Na minha qualidade de uma vitima de um TCE, e em relação aos que “NÃO NOS ABANDONAM”, tenho talvez, uma quota parte de responsabilidade por… aquela que eu já tinha escolhido para me acompanhar durante a minha vida inteira, ao fim de 15 meses, me ter abandonado…
Mas…, falemos de coisas agradáveis!
A minha “santa” mãe que foi e é quem me tem sempre acompanhado nesta luta, é a pessoa que com a belíssima idade de 69 anos e tem sido incansável. Alem disso, o facto de eu ter começado a trabalhar cedinho, com 12 anos(nas férias do Verão e aos fins de semana) fez com que eu tivesse muitos Amigos. Isto são factores que me enchem de orgulho a… publicar!
Mais, tenho-lhe a dizer que além de me ter privado da capacidade de fazer marcha autonomamente, afectou-me a memória que eu classifico como “memória imediata” pois, lembro-me com facilidade de coisas que se passaram na minha vida passada, no entanto, coisas que se passaram ontem, por exemplo, não sou capaz de me recordar.
Ainda relacionado com os Amigos que tenho, eles têm sido bestiais pois têm mostrado sempre vontade de me ajudar, naquilo que eu solicitar, muitas vezes, o problema é que sinto-me constrangido de estar sempre a solicitar as diferentes coisas que me são necessárias.
Depois do acidente que me vitimou, eu comecei a ser mais “selectivo”, nas Amizades que faço e, tento sempre mantê-las, mas…, acho que isso “está-me no sangue”, pois eu antes deste acidente que me vitimou era um agente da PSP, que me encontrava ao serviço em embaixadas e residências de Embaixadores estrangeiros, em serviço no nosso país e, residências de alguns membros do nosso Estado (ministros), e estou a fugir ao tema…, como eu estava a dizer, os meus Amigos têm sido incansáveis e no Centro de Reabilitação de Gaia (CRPG), encontrei um apoio que me deixou impressionado pela positiva pois, desconhecia que em Portugal havia gente tão, tão capacitada e disposta a ajudar casos, em parte semelhantes ao meu, se bem que convêm ressalvar que “cada caso é…, um caso”.
Eu, era uma pessoa cheia de dinamismo, basta dizer que passei 21 meses a servir a bandeira do meu país no Exercito Português, e apenas estive 18 meses a servir na Polícia de Segurança Pública.
Sou uma pessoa que não consegue ver sofrimento, perto de mim e para não ver a minha “santa mãe” a sofrer, no funeral do meu “muy querido” pai (4 anos depois do meu TCE), não chorei uma única lágrima, e acredite que eu AMAVA aquele Homem.

No CRPG, voltei a ter a minha independência (na medida das minhas limitações, entenda-se) e, reparei que há imensos casos diferentes do meu que apenas tem uma coisa em comum: todos foram vítimas de um TCE, cada um à sua maneira e cada um com a evolução possível (mais uma vez se aplica, “cada caso é, um caso”).
Aprendi e continuo a aprender a redireccionar a minha vida em função das limitações que me advieram. Não estou (muito) revoltado com quem me deu um cuidado ou era suposto dar…!
Neste momento estou a fazer um curso de Assistente Administrativo, no CRPG, que penso vou concluir com êxito e que me vai proporcionar “argumentos” para um dia mais tarde, poder lutar pelo lugar que vier a ter no meu novo emprego pois considero que ainda posso dar muito a esta sociedade em que vivemos e na qual começam a escassear os VALORES MORAIS (em meu entender).

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